Quinta-feira, Outubro 25, 2007

Procura-se

Estou procurando alguns livros e filmes que provavelmente emprestamos para alguém e esse alguém nunca mais devolveu. O problema é que emprestamos muitas coisas por aqui e depois de um tempo acabamos esquecendo quem está com o quê. Os itens perdidos que estou procurando atualmente são:

Livro Harry Potter e o Cálice de Fogo (o quarto da série)

Livro O Rei do Inverno da coleção 'Crônicas de Artur' de Bernard Cornwell -- com a Lori

Filmes (VHS) Hook - a Volta do Capitão Gancho e Peter Pan(desenho animado) ambos da Disney e talvez em fitas gravadas (tenho motivos para crer que alguém está com os dois)

Se você tiver um exemplar de algum desses em casa e não tiver certeza absoluta de que ele pertence a você, por favor dê uma conferida. Esses são livros caros e eu não quero ter que comprar de novo...
Aliás, se alguém aí estiver com qualquer coisa minha, de meus irmãos ou da "Casa dos Salles", por favor avise; Estou tentando inventariar tudo o que é nosso e que não está conosco.

E se algum amigo meu ler isto e lembrar de alguma coisa que está faltando na própria casa, pergunte se não está conosco, que nós também pegamos muita coisa emprestado e nem sempre lembramos de devolver.

Muito Obrigada;
Marina

Domingo, Outubro 14, 2007

A Morte de uma História, a Lenda de Black Bellamy e a Mulher dos Ossos - parte 3a

Este texto ainda é dedicado ao Ugo, embora eu tenha recusado seu convite, hoje. Acho que como o Ugo não está dentro do meu mundo interior, eu teria que caminhar, atravessando florestas e montanhas, até as fronteiras dele (até a minha superfície) para conseguir encontrá-lo, e isso me deixa terrivelmente cansada. As pessoas acham que na mente as informações são independentes, e que é possível pular de uma para outra automaticamente; mas a verdade é que toda vez eu percorro um confuso e difícil caminho de um ponto da mente a outro. Acho que é por isso que as vezes eu preciso ficar sozinha, em casa, parada num único sentimento de familiaridade. Me limitando às pequenas distâncias. Caminhando devagar. Descansando.

Peço desculpas por ter me escondido atrás da desculpa mentirosa de um trabalho. Falta-me às vezes, sabe? um pouco de coragem...



Foi preciso que eu me perguntasse, quando cresci, de onde vinha cada coisa. É preciso que se saiba (que se entenda) quais são nossas influências, como se cria nossa bagagem cultural. Existe pouca coisa que se cria por si própria. É preciso saber quem nos criou.
A primeira vez que me fiz essa pergunta, queria saber que tipo de animal eu era. A Lôba que eu queria ser, era uma lôba das lendas romanas? Era o Akela do filme do Mowgli? Era Caninos Brancos, ou Buck? Acho, sem muita certeza, que meu ídolo afinal era o próprio filhote de homem; e era também a pantera negra, Bagheera, e era a Mãe Lôba, que se chama Raksha. Reli o livro várias vezes procurando às cegas por mim. Vivi outras coisas depois, e outras coisas me fascinaram, mas nada foi tão forte, tão violento, e seguro.
Depois, perguntei de onde vêm os dragões. Estava absolutamente apaixonada por eles, e não conseguia entender a vida de outra forma. Mas achava estranha a presença deles em mim. Não sabia por que eu podia pensar em dragões. Levei muito tempo para lembrar dos filmes e contos de fada, e notei que os primeiros dragões que eu conhecera não tinham nada de fascinante. Mas talvez o fascínio estivesse oculto, pairando, esperando apenas o momento certo de se revelar. E despertou nos meus anos de ginásio, na espada de Lancelote, na peça que Bilbo prega em Smaug, no céu de Fantasia, em Nêmesis, Terry Pratchet, Nárnia, Holy Avenger, talvez até Harry Potter. E, talvez principalmente, jogos de fantasia, cujos cenários baseiam-se assustadoramente nas criaturas da Terra-Média. Lembro-me inclusive da primeira vez em que me deparei com um romance cujo assunto central eram dragões! Aquele formigamento na barriga, como se eu estivesse diante de um tesouro, como se aquela paixão pelos dragões fosse algo só meu, algo secreto, e o livro fosse um segundo segredo para saciar o primeiro! Como posso não ter notado que o mundo inteiro sofre a mesma doença?

Agora, me pergunto: e os piratas?

Consigo pensar no Capitão Gancho e em Simbad, o marujo. E no Corsário Negro, protagonista de um livro de aventura do qual eu só li a versão infantil (ou seja, resumida em menos de trinta páginas, com letras grandes). Todos têm lá a sua importância na minha própria história. Os piratas, naturalmente, me ensinaram coisas terríveis sobre a vida, coisas como a crueldade infantil, encarnada em Peter Pan, e como a resignação. Mas nem por isso deixei de associar a eles um certo senso de liberdade e independência necessários. Lembro da primeira vez em que me deparei com um autêntico romance de pirataria, em livro velho, cor de madeira, chamado Captain Blood. Mas justamente na parte em que o Sr. Peter Blood virava um pirata (e passava a se Pedro Sangue, o que eu achava muito divertido), perdi o interesse no livro e o larguei. Depois disso, só fui redespertar meu fascínio com Piratas do Caribe. E depois, One Piece. Apesar do entusiasmo inicial que essas duas obras me causaram, aos poucos (com as seqüências e o desenvolvimento das sagas) elas foram amortecendo em mim o que eu procurava. Aos poucos foi como um tiro no peito que se demorou anos para sentir. Aos poucos os piratas dentro de mim morreram, ou passaram a nunca ter existido. Eu fechei os olhos para eles, continuei gostando daquele sonho bobo de piratas, e só. Aos poucos eles se tornaram uma brincadeira de criança com os amigos. E só.
Com Black Sam Bellamy não foi assim.

Quando li O Lobo do Mar, eu estava procurando um livro sobre lobos e sobre piratas ao mesmo tempo. Sinto que esse livro não existe; mas aquela história me fez esquecer de ambos e me focar no Mar, que existe, e nos homens que navegam nele. O mesmo me causou A Volta ao Mundo em um Doze-Pés, com a diferença de que era uma história verídica, o que a tornava muito mais interessante (embora não tão... edificante, por assim dizer). Mesmo assim, não cheguei a procurar outras livros do gênero — simplesmente não tive interesse. Encontrei O Príncipe Pirata meio por acaso, porque minha irmã me havia mandado lê-lo muito tempo antes, e eu achei que o livro podia ser sobre um homem que era ao mesmo tempo príncipe e pirata (numa mistura de Corsário Negro com Robin Hood que a minha mente criou por conta própria). Mas o que encontrei foi um relato simpático da busca de um homem pelo navio de seus sonhos: a Whydah, a maior (e última) embarcação do pirata Black Sam Bellamy.


nota: este texto está incompleto, é claro. Eu realmente gostaria de terminá-lo de uma vez e acabar logo com isso, mas está meio difícil. Mais tarde eu termino, provavalmente também apagando algumas partes. Mas... mais tarde.

Segunda-feira, Outubro 01, 2007

A Morte de uma História, a Lenda de Black Bellamy e a Mulher dos Ossos - parte 2

Este texto ainda é dedicado ao Ugo, embora talvez não pareça. É que eu achava que o Ugo não existia nas minha paisagens internas (o que quero dizer é que não há uma metáfora associada a ele — ele é ele mesmo), mas agora vejo que um rapaz distinto se aproxima da costa e procura pelo horizonte seu futuro navio... Mas essa é uma história para ser contada outro dia...



Eu não sei exatamente o quê no texto do Ugo simplesmente disparou algo em mim. Relendo várias e várias vezes aquele texto, não consigo reencontrar a certeza e a clareza com que os ideais dos piratas de Black Sam Bellamy afloraram na minha mente, e a necessidade de contar sua história que se infiltrou determinantemente em mim. Acho que nada disso teria acontecido se minutos antes eu não estivesse lendo aquele livro; se naquele livro não estivesse escrita aquela singela palavra, se não estivessem transcritas aquelas histórias simbólicas, eu não estaria, certamente, escrevendo isto aqui.

Clarissa Estés, a autora do livro, diz que onde quer que ela fosse, ouvindo e buscando lendas e vivências, essas histórias, de pessoas que se dedicam aos ossos, que ressucitam os mortos, ou de uma mulher que é uma loba que é uma mulher, a perseguiam. La Huesera, a Mulher dos Ossos, é uma velha que percorre os desertos recolhendo ossos que podem se desfazer na areia. Ela mora em uma caverna cujo chão está coberto de ossos de lagartos, cobras e pássaros, mas o que a velha mais procura são ossos de lobos. Quando ela finalmente reúne um esqueleto completo de um lobo, e arruma cuidadosamente cada pequeno osso numa escultura no chão da caverna, ela senta-se diante dos ossos e pensa na canção que irá cantar. Quando a canção se revela para ela, então, ela estende suas mãos sobre os ossos, e começa a cantar, e conforme ela canta os ossos se levantam e se cobrem de carne.
Ela canta mais, e a carne se cobre de pele e os pêlos se levantam. Ela canta mais e mais forte, e a criatura-lobo levanta a cabeça e sua cauda ganha uma bela curva para cima. Ela continua a cantar, e a criatura-lobo começa a respirar. Ela canta mais e mais, e o lobo abre os olhos e dispara para fora da caverna, correndo pelo deserto com os pêlos brilhando sob o luar. Então, alguma coisa na noite, talvez um raio de luz que a lua cheia lança em seus olhos, talvez um resto de vento que levanta a poeira no seu caminho, ou as gotas da água de uma lagoa que voam sob seus passos, arrebata a criatura-lobo, e ela se transforma numa mulher, que corre nua pelo deserto, rindo e uivando para a noite. Eu gosto de imaginar que isso acontece exatamente no momento em que soa a última nota da canção da velha, na caverna.

O fato de a Mulher dos Ossos ser também chamada de La Loba me acorda para a idéia de que a velha e a mulher-lôba são na verdade a mesma coisa: algum dia a Mulher que Corre será velha, gorda e circunspecta, e andará pelos desertos recolhendo ossos de seus irmãos lobos. Ela dará vida e juventude a velhos ossos, repentindo o ritual ancestral de infinitas mulheres antes dela, que são, afinal, a mesma. Essa visão do conto, bastante diferente da discutida no livro, é uma repetição de uma história pessoal que a autora havia contado na introdução — um sonho seu, no qual ela contava suas histórias de pé sobre os ombros de uma mulher muito velha, que por sua vez estava de pé nos ombros de outra ainda mais velha, e assim por diante. Mulheres que Correm com os Lobos é um livro sobre a necessidade de se resgatar em todas as mulheres sua força instintiva e intuitiva, sua força criativa, sua liberdade, sua conciência, etc; entretanto, o que realmente me pegou foi essa idéia de continuidade, essa força das histórias, e a palavra "cantadora", contadora de histórias, que é como a autora (que eu tenho vontade de chamar de "narradora" e "protagonista") descreve a si mesma. Naquele instante me vieram à mente todas as pessoas na minha vida que haviam me contado histórias, fosse para ensinar, fosse para acalmar, ou simplesmente para divertir; me veio à mente a imagem de minha vó contando histórias para os netos na sua grande cama de casal.



Sabe, minha vó morreu quando eu tinha dezesseis anos. Dezesseis anos parece muito tempo para se conhecer alguém, mas a verdade é que nos últimos anos, quando eu finalmente tinha maturidade suficiente para enxergar as pessoas como pessoas (embora não completamente dissociadas de seu caráter simbólico), quase não vi minha vó. Assim, no dia em que ela morreu, demorei muito tempo para entender por quem, exatamente, eu estava chorando. Lembro que chorei primeiro pelos meus pais e tios, que haviam perdido sua mãe; depois, chorei pela avó que era minha, que contava histórias, que tinha uma voz doce, que errava os nomes, que servia almoços gostosos, que nos levava a lugares diferentes, que me ensinou a jogar xadrez, que eu amava; e só no fim, depois de aprender sobre ela inúmeras coisas que eu nunca tinha pensado, é que comecei a chorar pela pessoa que minha avó era: a mulher grande, forte, amorosa, amada por todos, a que ia em frente sem se embaraçar com seus próprios erros, a professora, a psicóloga, a que vencia os jogos de buraco, que ensinava os netos antigos joguinhos de lógica, que queria nos levar para o pantanal, que assistia filmes na sessão da tarde e aprendia com eles, e aprendia com tudo.
De certa forma, ler esse livro que minha avó leu, que foi importante para ela, é iniciar uma jornada à procura dela, de quem ela era, do que ela buscava. Enquanto leio, estou, mesmo sem querer, imaginando o que ela pensou quando leu aquilo, o que ela sentiu. Será que ela encontrou sua Luz del Abyss, será que mergulhou no Río Abajo Río? Qual será a história que mais a emocionou? Será que ela também se sentia na obrigação de contar histórias para nós, de nos ensinar coisas através delas? Será que ela se inspirou com esse livro, ou será que ele apenas reforçou o que instintivamente ela já buscava? Será que ela viveu a Loba dentro dela até o fim dos seus dias? Será que foi isso que lhe deu coragem, até o fim? para viver seu amor, para mudar sua vida, para ser "completamente feliz", como ela me disse? Para aceitar a morte? Para estender, ou segurar, a mão no momento certo? Será que minha avó foi verdadeiramente forte? Será que ela também desviou os olhos, e não quis olhar para as cavernas mais escuras do seu ser? Será que um dia ela teve muito, mas muito mêdo? Será que ela olhava para cima à procura do céu completamente azul?

Enquanto leio, enquanto escrevo, enquanto penso e sonho, olho para baixo e vejo que estou pisando nos ombros de minha avó. Mas ela quase não sente meu peso; ela poderia agüentar todos os netos em uma só asa, e sabe-se lá o que mais, na outra. Minha avó é uma enorme águia, um pássaro grande como o Róque (o mesmo Róque que olho passar voando da janela de minha torre, gato) mas com um olhar doce, arredondado, e não pontiagudo como o das aves de rapina. Ela é grande e protetora como uma mamãe galinha, com todos os pintinhos ao redor; mas seu olhar também não é assustado como o da galinha e o dos passarinhos. Também não é um olhar reflexivo e misterioso como o das corujas. É um olhar cálido, familiar. É um olhar como o de uma mãe. É algo que me faz procurar por ela, agora, tanto tempo depois. Finalmente.